{"id":9279,"date":"2019-02-19T00:00:00","date_gmt":"2019-02-18T23:00:00","guid":{"rendered":"http:\/\/eduso.net\/res\/articulo\/consumo-e-sustentabilidade-em-circulos-freireanos-de-cultura-uma-experiencia-com-estudantes-do-sul-do-brasil\/"},"modified":"2021-03-01T11:30:36","modified_gmt":"2021-03-01T10:30:36","slug":"consumo-e-sustentabilidade-em-circulos-freireanos-de-cultura-uma-experiencia-com-estudantes-do-sul-do-brasil","status":"publish","type":"articulo","link":"https:\/\/eduso.net\/res\/revista\/28\/el-tema\/consumo-e-sustentabilidade-em-circulos-freireanos-de-cultura-uma-experiencia-com-estudantes-do-sul-do-brasil","title":{"rendered":"Consumo e sustentabilidade em C\u00edrculos Freireanos de Cultura: uma experi\u00eancia com estudantes do Sul do Brasil"},"content":{"rendered":"<p><strong><em>Consumo e sustentabilidade em C\u00edrculos Freireanos de Cultura: uma experi\u00eancia com estudantes do Sul do Brasil<\/em><\/strong><\/p>\n<p><strong>Consumption and sustainability in Freirean culture circles: an experience with Southern Brazilian students<\/strong><\/p>\n<h2><strong>Introdu\u00e7\u00e3o<\/strong><\/h2>\n<p>Esta pesquisa teve como objeto de estudo o Grupo Ambiental de uma escola p\u00fablica do munic\u00edpio de Curitiba (Estado do Paran\u00e1, Brasil). Um Grupo Ambiental, no \u00e2mbito escolar, pode ser compreendido como um coletivo integrado por professores, estudantes e demais membros da comunidade escolar, com objetivos comuns e que visa o desenvolvimento e a implementa\u00e7\u00e3o de a\u00e7\u00f5es pedag\u00f3gicas e interdisciplinares referentes \u00e0s quest\u00f5es ambientais, sociais e culturais pertinentes a comunidade escolar. Tais a\u00e7\u00f5es s\u00e3o voltadas \u00e0 sensibiliza\u00e7\u00e3o e a tomada de consci\u00eancia sobre a realidade ambiental para compreender, proteger, preservar e conservar o meio ambiente, bem como para problematizar e refletir sobre formas de desenvolvimento social e econ\u00f4mico que considerem, ou n\u00e3o, os princ\u00edpios de sustentabilidade em sua constitui\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>O estudo do Grupo Ambiental se justifica pela import\u00e2ncia das tem\u00e1ticas abordadas e pela necessidade de potencializar a Educa\u00e7\u00e3o Ambiental no contexto da educa\u00e7\u00e3o escolar e na forma\u00e7\u00e3o da cidadania. Na estrutura curricular das escolas p\u00fablicas brasileiras, a Educa\u00e7\u00e3o Ambiental n\u00e3o possui um espa\u00e7o\/tempo definido e, na maioria das vezes, n\u00e3o est\u00e1 institucionalizada no Projeto Pol\u00edtico Pedag\u00f3gico das unidades escolares, o que determina limita\u00e7\u00f5es no trabalho dos professores. Conforme Guimar\u00e3es (2007), \u00e9 importante ressaltar que, apesar da difus\u00e3o crescente da Educa\u00e7\u00e3o Ambiental nas escolas, essa a\u00e7\u00e3o educativa se apresenta fragilizada em suas pr\u00e1ticas pedag\u00f3gicas, pois n\u00e3o se inserem em processos que conduzam a transforma\u00e7\u00f5es significativas da realidade. No contexto brasileiro, apesar de ser considerada como um tema transversal ao curr\u00edculo, a Educa\u00e7\u00e3o Ambiental \u00e9 comumente tratada de forma espor\u00e1dica e descontinuada nos planos de trabalho dos professores.<\/p>\n<p style=\"text-align: center;\"><img src=\"\/res\/wp-content\/uploads\/imgCK\/images\/ea3r.jpg\" alt=\"\" \/><\/p>\n<h6><small>(Imagen <a href=\"https:\/\/www.flickr.com\/photos\/42314082@N02\/19087501412\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">Flickr<\/a>)<\/small><\/h6>\n<p>Desse modo, considerando que tais pr\u00e1ticas de Educa\u00e7\u00e3o Ambiental precisam ser potencializadas, nos perguntamos <em>como a experi\u00eancia desenvolvida com o Grupo Ambiental poderia sensibilizar os estudantes para a mudan\u00e7a (ou transforma\u00e7\u00e3o) de h\u00e1bitos, valores e comportamentos em rela\u00e7\u00e3o ao meio ambiente e ao consumo?<\/em> Para tentar responder a esta indaga\u00e7\u00e3o, buscamos, a partir da constitui\u00e7\u00e3o de um coletivo de estudantes do 8\u00ba ano do Ensino Fundamental, problematizar a tem\u00e1tica do consumo respons\u00e1vel por meio da organiza\u00e7\u00e3o de C\u00edrculos de Cultura (Freire, 1987).<\/p>\n<h2><strong>A Educa\u00e7\u00e3o Ambiental no contexto escolar <\/strong><\/h2>\n<p>O campo conceitual e as correntes que compreendem as pesquisas em Educa\u00e7\u00e3o Ambiental s\u00e3o amplos, complexos e poliss\u00eamicos, e t\u00eam evolu\u00eddo ao longo da hist\u00f3ria de acordo com as conjunturas pol\u00edticas, ambientais e socioculturais em diferentes espa\u00e7os. Considerando-a como um subcampo da educa\u00e7\u00e3o, em entrevistas publicadas por Arias Ortega (2012), Gonz\u00e1lez Gaudiano, Leff, Sauv\u00e9, Caride G\u00f3mez, Meira Cartea, entre outros, apontam que a Educa\u00e7\u00e3o Ambiental \u00e9 uma \u00e1rea do conhecimento cujo campo encontra-se em constru\u00e7\u00e3o e\/ou consolida\u00e7\u00e3o, o que lhe d\u00e1 diferentes contornos, de onde emergem desafios e possibilidades.<\/p>\n<p>Nesta pesquisa, como forma de balizamento conceitual, tomamos a defini\u00e7\u00e3o encontrada na Pol\u00edtica Nacional de Educa\u00e7\u00e3o Ambiental brasileira (1999), que considera a Educa\u00e7\u00e3o Ambiental como \u201c<em>processos por meio dos quais o indiv\u00edduo e a coletividade constroem valores sociais, conhecimentos, habilidades\u201d, <\/em>como uma das orienta\u00e7\u00f5es que permitem compreender e interpretar as implica\u00e7\u00f5es da Educa\u00e7\u00e3o Ambiental no contexto formativo das escolas. Outros autores (Caride G\u00f3mez, 1991; Sauv\u00e9, 2005) complementam essa defini\u00e7\u00e3o e serviram de apoio para a intepreta\u00e7\u00e3o dos dados<em>.<\/em> Associando esses conceitos ao <em>l\u00f3cus<\/em> e objeto da pesquisa, ressalta-se que consideramos a Educa\u00e7\u00e3o Ambiental como uma dimens\u00e3o da educa\u00e7\u00e3o escolar. E, \u00e9 neste sentido tamb\u00e9m que Oliveira e Oliveira (2012) p\u00f5e de relevo a compreens\u00e3o de que a escola \u00e9 um espa\u00e7o privilegiado para o desenvolvimento e o fortalecimento das pr\u00e1ticas de Educa\u00e7\u00e3o Ambiental, tendo em vista que ela possibilita o exerc\u00edcio da sensibiliza\u00e7\u00e3o e da tomada de consci\u00eancia sobre a realidade ambiental.<\/p>\n<p style=\"text-align: center;\"><img src=\"\/res\/wp-content\/uploads\/imgCK\/images\/eacori.jpg\" alt=\"\" \/><\/p>\n<h6><small>(Imagen. Educaci\u00f3n ambiental en escuelas de Curitiba\u00a0&#8220;<a style=\"font-size: 10.8333px; text-align: center;\" href=\"https:\/\/www.redalyc.org\/pdf\/401\/40113202005.pdf\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">Planeaci\u00f3n\u00a0urbano de Curitiba<\/a>&#8220;)<\/small><\/h6>\n<p>Para Carvalho (2004), a educa\u00e7\u00e3o, e, em efeito a Educa\u00e7\u00e3o Ambiental, produz cultura e transforma a natureza, atribuindo-lhe sentidos, trazendo-a para o campo da compreens\u00e3o e da experi\u00eancia humana. Esta abordagem nos permite pensar o processo de transi\u00e7\u00e3o para sociedades sustent\u00e1veis a partir de mudan\u00e7as na cultura e nos valores que sustentam a din\u00e2mica social. Pois, ainda de acordo com a autora, somos envolvidos pelas condi\u00e7\u00f5es ambientais, ao mesmo tempo em que n\u00f3s, como seres simb\u00f3licos e portadores de linguagem, produzimos nossa vis\u00e3o e nossos recortes da realidade, construindo percep\u00e7\u00f5es e formando cultura.<\/p>\n<h2><strong>A escola como um espa\u00e7o educador sustent\u00e1vel<\/strong><\/h2>\n<p>No atual cen\u00e1rio pol\u00edtico e econ\u00f4mico, muitos pa\u00edses enfrentam uma crise ambiental decorrente, por um lado, do modo capitalista de produ\u00e7\u00e3o e, por outro, pelos valores sociais e pelos padr\u00f5es de consumo por ele estimulado, al\u00e9m de outros fatores. Neste contexto, no qual a natureza passou a ser vista apenas como uma fonte de explora\u00e7\u00e3o dos bens naturais, faz-se necess\u00e1rio repensar os modos de vida assumidos por diferentes sociedades a partir da problematiza\u00e7\u00e3o dos elementos simb\u00f3licos que permeiam a cultura, atribuem identidade aos grupos e cunham seus comportamentos e a\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p>Com o intuito de refletir sobre o papel da escola na busca de alternativas em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 problem\u00e1tica ambiental, emerge, a luz dos princ\u00edpios de sustentabilidade, a proposta de fortalecer a din\u00e2mica escolar como um \u201cespa\u00e7o educador sustent\u00e1vel\u201d. Este termo est\u00e1 associado \u00e0s escolas que praticam a Educa\u00e7\u00e3o Ambiental de maneira ativa, continua e comprometida com transforma\u00e7\u00f5es sociais. A ideia parte das iniciativas que j\u00e1 ocorriam nas escolas para pensar coletivamente as propostas que consideram o curr\u00edculo, a gest\u00e3o e o relacionamento com a comunidade como elementos para o fortalecimento da cidadania. Assim, as Escolas sustent\u00e1veis s\u00e3o definidas como \u201caquelas que mant\u00eam rela\u00e7\u00e3o equilibrada com o meio ambiente e compensam seus impactos com o desenvolvimento de tecnologias apropriadas, de modo a garantir qualidade de vida \u00e0s presentes e futuras gera\u00e7\u00f5es. Esses espa\u00e7os t\u00eam a intencionalidade de educar pelo exemplo e irradiar sua influ\u00eancia para as comunidades nas quais se situam\u201d. (Brasil, 2013: 2)<\/p>\n<p style=\"text-align: center;\"><img src=\"\/res\/wp-content\/uploads\/imgCK\/images\/ea2r.jpg\" alt=\"\" \/><\/p>\n<h6><small>(Imagen <a href=\"https:\/\/www.flickr.com\/photos\/51400742@N07\/6059593121\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">Flickr<\/a>)<\/small><\/h6>\n<p>Todavia, na atual conjuntura socioecon\u00f4mica, \u00e9 preciso considerar que existem muitas limita\u00e7\u00f5es e dificuldades para efetivar a\u00e7\u00f5es coerentes com a pr\u00e1tica de uma escola sustent\u00e1vel. Se considerarmos os princ\u00edpios capitalistas que est\u00e3o impregnados na cultura de diversas sociedades e a car\u00eancia de recursos e pol\u00edticas p\u00fablicas para o desenvolvimento de uma escola sustent\u00e1vel, esta realidade se torna ainda mais evidente. Por\u00e9m, ao<\/p>\n<blockquote class=\"citados\"><p>\u00a0\u201cdesejarmos a constru\u00e7\u00e3o de sociedades sustent\u00e1veis que beneficiem a todos os elementos com os quais compartilhamos este planeta, precisamos superar as limita\u00e7\u00f5es (&#8230;), o que exige pol\u00edticas p\u00fablicas voltadas para a inclus\u00e3o e a participa\u00e7\u00e3o\u201d. (Sorrentino, 2011: 23)<\/p><\/blockquote>\n<p>A escola representa um espa\u00e7o de trabalho fundamental para desenvolver o ensino e fortalecer as pr\u00e1ticas de Educa\u00e7\u00e3o Ambiental (Torales, 2006). Da\u00ed a import\u00e2ncia e a necessidade de (re) pensarmos a\u00e7\u00f5es alternativas para fortalecer as pr\u00e1ticas escolares e a Educa\u00e7\u00e3o Ambiental como caminho para a transforma\u00e7\u00e3o sociocultural e apontar medidas concretas e imediatas face aos desafios socioambientais.<\/p>\n<h2><strong>O C\u00edrculo de Cultura Freireano <\/strong><\/h2>\n<p>A Educa\u00e7\u00e3o, como um processo humano e social que acontece por meio da intera\u00e7\u00e3o entre as pessoas, \u00e9 influenciada por diferentes formas de linguagem e de apropria\u00e7\u00e3o do conhecimento, mediados por processos axiol\u00f3gicos que podem influenciar ou determinar transforma\u00e7\u00f5es culturais. Nesta tessitura, com o objetivo a estrutura\u00e7\u00e3o do Grupo Ambiental \u2013 objeto de estudo desta pesquisa \u2013 e considerando a linguagem como forma ou processo de intera\u00e7\u00e3o entre as pessoas, optou-se pelo C\u00edrculo de Cultura (Freire, 1987) como m\u00e9todo de aproxima\u00e7\u00e3o ao campo emp\u00edrico, como apontam Franco e Loureiro (2014) ao dizer que,<\/p>\n<blockquote class=\"citados\"><p>\u201cO C\u00edrculo de Cultura Freireano, espa\u00e7o educativo onde transitam diferentes subjetividades e convivem diferentes saberes, assume a experi\u00eancia do di\u00e1logo de forma coletiva e solid\u00e1ria em todos os momentos do processo, de tal modo que seu produto, o conhecimento gerado, seja resultante dessas situa\u00e7\u00f5es\u201d. (Loureiro; Franco, 2014: 171-172)<\/p><\/blockquote>\n<p>Assim, o C\u00edrculo de Cultura emerge como uma possibilidade para o enfrentamento de situa\u00e7\u00f5es problema no contexto educativo-ambiental e como via de di\u00e1logo, intera\u00e7\u00e3o e constru\u00e7\u00e3o coletiva de conhecimentos e novas vis\u00f5es de mundo. Por suas caracter\u00edsticas, esse m\u00e9todo possui potencial para contribuir no enfrentamento das necessidades que professores e estudantes apresentam em suas rela\u00e7\u00f5es dial\u00f3gicas e no desenvolvimento da Educa\u00e7\u00e3o Ambiental nas escolas.<\/p>\n<p style=\"text-align: center;\"><img src=\"\/res\/wp-content\/uploads\/imgCK\/images\/cir(1).jpg\" alt=\"\" \/><\/p>\n<h6><small>(Imagen:\u00a0<a href=\"https:\/\/allevents.in\/porto%20alegre\/c%C3%ADrculo-de-cultura-freireano-1\/1793600084281968\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">C\u00edrculo de Cultura Freireano 1<\/a>)<\/small><\/h6>\n<p>A concep\u00e7\u00e3o de educa\u00e7\u00e3o freireana tem influenciado muitos estudos e pesquisas no campo da Educa\u00e7\u00e3o Ambiental, tendo em vista que a rela\u00e7\u00e3o sociedade-natureza evidencia a urg\u00eancia de se construir alternativas te\u00f3ricas e epistemol\u00f3gicas sob novas bases metodol\u00f3gicas. Nesse sentido, o m\u00e9todo pode se constituir em um caminho n\u00e3o apenas de constru\u00e7\u00e3o do conhecimento, mas nos orientar em dire\u00e7\u00e3o a uma educa\u00e7\u00e3o emancipat\u00f3ria e, qui\u00e7\u00e1, mais transformadora.<\/p>\n<h2><strong>Tema gerador: o consumo respons\u00e1vel <\/strong><\/h2>\n<p>Sendo o C\u00edrculo de Cultura uma estrat\u00e9gia baseada nas viv\u00eancias pr\u00e9vias e na cultura em que cada participante est\u00e1 imerso, fez-se necess\u00e1rio elaborar um diagn\u00f3stico acerca da realidade socioambiental e biogr\u00e1fica dos estudantes envolvidos na pesquisa. Este processo permitiu identificar um tema gerador coerente com os interesses e as viv\u00eancias cotidianas dos participantes. Conforme os dados da realidade e estilos de vida da regi\u00e3o da escola, o consumo respons\u00e1vel foi definido como eixo dos debates e referente para dinamizar o di\u00e1logo no C\u00edrculo de Cultura.\u00a0 Este processo de defini\u00e7\u00e3o do tema gerador \u00e9 importante, pois<\/p>\n<blockquote class=\"citados\"><p>\u00a0\u201c(&#8230;) \u00e9 uma quest\u00e3o de op\u00e7\u00e3o que traz em si, implicitamente, uma ideologia que se explicita na intencionalidade e na diretividade pedag\u00f3gica dada na problematiza\u00e7\u00e3o, podendo, portanto, estar a servi\u00e7o da manuten\u00e7\u00e3o ou da mudan\u00e7a \/ transforma\u00e7\u00e3o do n\u00edvel de consci\u00eancia dos sujeitos da a\u00e7\u00e3o educativa e, consequentemente, a servi\u00e7o da manuten\u00e7\u00e3o ou transforma\u00e7\u00e3o da sociedade\u201d. (Loureiro; Franco, 2014: 176)<\/p><\/blockquote>\n<p>Em rela\u00e7\u00e3o ao consumo respons\u00e1vel, vale ressaltar que o avan\u00e7o do sistema capitalista, bem como o vertiginoso crescimento demogr\u00e1fico verificado especialmente ap\u00f3s a Primeira Revolu\u00e7\u00e3o Industrial em meados do s\u00e9culo XVIII, tem contribu\u00eddo significativamente para um aumento crescente da produ\u00e7\u00e3o e, por conseguinte, tamb\u00e9m para a expans\u00e3o do consumo.<\/p>\n<p style=\"text-align: center;\"><img src=\"\/res\/wp-content\/uploads\/imgCK\/images\/manzanar.jpg\" alt=\"\" \/><\/p>\n<h6><small>(Imagen: <a href=\"https:\/\/ecovamos.com\/guia-sencilla-de-consumo-responsable\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">ecovamos<\/a>)<\/small><\/h6>\n<p>\u201c\u00c9 natural\u201d que o sistema capitalista continue, incessantemente, o seu processo de incentivo ao consumo irrespons\u00e1vel e\/ou desnecess\u00e1rio, por meio de grandiosas e espetaculares campanhas publicit\u00e1rias e de <em>marketing<\/em>, pois o consumo \u00e9 o motor deste sistema socioecon\u00f4mico. Todavia, apenas uma parcela pequena da popula\u00e7\u00e3o acaba servindo-se deste sistema, perpetuando padr\u00f5es de bem-estar e qualidade de vida, enquanto que o restante das pessoas, \u00e9 cruelmente vitimizada ou explorada pelas desigualdades geradas na base dos mecanismos que sustentam tal sistema.<\/p>\n<p>Canclini (2006: 60), ao refletir sobre a influ\u00eancia do modelo de desenvolvimento capitalista na defini\u00e7\u00e3o do conceito de cidadania, nos convida a refletir sobre quest\u00f5es como: <em>O que significa consumir? Qual \u00e9 a raz\u00e3o, para os produtores e para os consumidores, que faz o consumo se expandir e se renovar incessantemente? <\/em>Ao tentar dar resposta a isto, o autor define o consumo como o conjunto de processos socioculturais em que se realizam a apropria\u00e7\u00e3o e os usos dos produtos. Como parte da cultura humana, este processo merece ser repensado a luz de novos tempos e de seus desdobramentos e implica\u00e7\u00f5es com a realidade social e ambiental. Da mesma forma, utilizando-se dos conceitos de identidade e cultura, Canclini (2006) chama a aten\u00e7\u00e3o para a forma como as mudan\u00e7as na maneira de consumir alteraram as possibilidades e as formas de exerc\u00edcio da cidadania, bem como destaca a necessidade de compreender as pol\u00edticas e as formas de participa\u00e7\u00e3o para (re) pensar o significado de ser cidad\u00e3o e de ser consumidor. Seus estudos embasaram e possibilitaram importantes reflex\u00f5es sobre o tema gerador escolhido para a pesquisa, pois um dos princ\u00edpios da Educa\u00e7\u00e3o Ambiental e do C\u00edrculo de Cultura \u00e9 de promover a reflex\u00e3o cr\u00edtica de temas e problematizar a realidade dos sujeitos envolvidos, neste caso, os estudantes.<\/p>\n<h2><strong>Caminho metodol\u00f3gico<\/strong><\/h2>\n<p>A experi\u00eancia foi analisada com base em uma pesquisa qualitativa com o Grupo Ambiental de uma escola p\u00fablica localizada na regi\u00e3o sul do Brasil via C\u00edrculo de Cultura. O grupo foi composto por quinze estudantes do 8\u00ba ano do Ensino Fundamental que foram convidados a participar da experi\u00eancia ap\u00f3s a apresenta\u00e7\u00e3o da proposta de trabalho.<\/p>\n<p>Visando comparar os comportamentos e as percep\u00e7\u00f5es dos estudantes ao participarem da experi\u00eancia nos C\u00edrculos de Cultura, foram diagnosticados os conhecimentos pr\u00e9vios e as impress\u00f5es dos participantes sobre a tem\u00e1tica do consumo respons\u00e1vel (tema gerador), por meio da aplica\u00e7\u00e3o de um question\u00e1rio diagn\u00f3stico. Para garantir o anonimato dos participantes presentes nos encontros, os mesmos foram identificados pela letra P seguida de um n\u00famero.<\/p>\n<p>No decorrer dos encontros foram realizadas diversas atividades para apresenta\u00e7\u00e3o de dados relacionados ao tema em debates e est\u00edmulo a discuss\u00e3o. Foram realizadas an\u00e1lises de textos, v\u00eddeos e imagens com o objetivo de promover di\u00e1logos sobre os diversos aspectos da problem\u00e1tica ambiental com \u00eanfase no consumo respons\u00e1vel.<\/p>\n<p>A faixa et\u00e1ria dos participantes era de 12 a 14 anos de idade. Pelas caracter\u00edsticas desta fase do desenvolvimento e caracter\u00edsticas pessoais, alguns participantes demonstraram uma postura t\u00edmida durante as discuss\u00f5es, tendo em vista que muitos ainda n\u00e3o se conheciam e aquela era a primeira oportunidade em que realizavam uma atividade juntos. Na medida em que os encontros e os debates avan\u00e7aram, por estarem mais familiarizados com os membros do grupo, os participantes se mostraram mais ativos e desinibidos.<\/p>\n<p>As a\u00e7\u00f5es ocorreram ao longo de seis encontros realizados semanalmente em contraturno escolar, tendo em vista que no Brasil a carga hor\u00e1ria escolar di\u00e1ria \u00e9 de meio turno, ou seja, quatro horas. As t\u00e9cnicas de coleta de dados tiveram como base o m\u00e9todo freireano do C\u00edrculo de Cultura, tomando o processo de consumo em sociedades capitalistas como tema gerador. Os dados coletados foram analisados sob o enfoque qualitativo e por meio da an\u00e1lise de conte\u00fado.<\/p>\n<h2><strong>Resultados: das concep\u00e7\u00f5es pr\u00e9vias dos estudantes \u00e0s emerg\u00eancias de novas possibilidades de compreender a realidade<\/strong><\/h2>\n<p>Nos resultados da pesquisa foi poss\u00edvel observar que a rela\u00e7\u00e3o Homem, Sociedade e meio ambiente ainda \u00e9 um campo do qual emergem muitas d\u00favidas. Nota-se que temas como o consumo, a gera\u00e7\u00e3o de res\u00edduos, a polui\u00e7\u00e3o, a reciclagem e o desmatamento s\u00e3o express\u00f5es que marcam as no\u00e7\u00f5es que os estudantes explicitam em rela\u00e7\u00e3o ao meio ambiente. No entanto, buscamos compreender os significados e simbolismos que v\u00e3o al\u00e9m deste universo, tendo em vista que a Educa\u00e7\u00e3o Ambiental precisa ser compreendida como um processo educativo mais amplo, de car\u00e1ter pessoal e coletivo, no qual os indiv\u00edduos e a comunidade tomam consci\u00eancia de sua realidade visando \u00e0 compreens\u00e3o e transforma\u00e7\u00e3o do mundo (Caride G\u00f3mez, 1991).<\/p>\n<p>Em rela\u00e7\u00e3o \u00e0s atitudes dos estudantes sobre meio ambiente e consumo, foi poss\u00edvel identificar que houve uma divis\u00e3o clara de posicionamentos no grupo. Os participantes P1, P2, P4, P10 e P12 demonstraram preocupa\u00e7\u00e3o no que se refere aos cuidados com o meio ambiente e suas pr\u00e1ticas de consumo. Por outro lado, os participantes, P7, P8, P9 e P11 reconheceram que suas rela\u00e7\u00f5es com o meio ambiente poderiam ser melhoradas, mas n\u00e3o explicitaram as implica\u00e7\u00f5es que decorrem da quest\u00e3o.<\/p>\n<p>Apesar da diversidade de posicionamentos, fica clara a rela\u00e7\u00e3o que os estudantes estabelecem entre a tem\u00e1tica da produ\u00e7\u00e3o, do consumo e da gera\u00e7\u00e3o de res\u00edduos com sua vida cotidiana, com as caracter\u00edsticas de seu fazer cultural e do exerc\u00edcio de sua cidadania, conforme apontam os estudos de Canclini (2006) ao relacionar os conceitos de \u201ccidad\u00e3o\u201d e \u201cconsumidores\u201d como elementos din\u00e2micos que exercem mutua influ\u00eancia entre si.<\/p>\n<p>Nesta mesma dire\u00e7\u00e3o, Carvalho (2004) corrobora ao afirmar que a educa\u00e7\u00e3o, como produtora de cultura e transformadora da natureza por meio dos sentidos que lhe atribui [&#8230;] torna a Educa\u00e7\u00e3o Ambiental como mediadora para uma leitura e interpreta\u00e7\u00e3o sobre a realidade. Esta perspectiva nos apoiou para aprofundar o di\u00e1logo entre as representa\u00e7\u00f5es dos estudantes e a possibilidade de compreender suas interpreta\u00e7\u00f5es do mundo e de sua cultura. Assim, ao longo dos encontros e por meio dos di\u00e1logos, foi poss\u00edvel perceber as conex\u00f5es estabelecidas entre sociedade e natureza, sua representa\u00e7\u00e3o e simbologia nas a\u00e7\u00f5es cotidianas dos estudantes, bem como a forma como os participantes manifestam e atribuem significado as suas representa\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p>Al\u00e9m disso, os dados demonstram que nas representa\u00e7\u00f5es expressas pelos participantes h\u00e1 uma preocupa\u00e7\u00e3o com os problemas ambientais e sobre a busca de alternativas que respondam a tal problem\u00e1tica. Neste sentido, destacamos a manifesta\u00e7\u00e3o do participante P5, pois o mesmo afirma que <em>a escola colabora com as quest\u00f5es ambientais, mas que muitos estudantes n\u00e3o fazem a sua parte<\/em>, ou seja, h\u00e1 uma necessidade de maior responsabilidade por parte de muitas pessoas. Por outro lado, os participantes P8 e P13 apontaram alternativas que remetem <em>ao compromisso de todos para um ambiente \u201cconservado\u201d, <\/em>o que denota uma preocupa\u00e7\u00e3o de que as a\u00e7\u00f5es sejam compreendidas como coletivas.<\/p>\n<p>Ao pensar que a constru\u00e7\u00e3o da cultura da sustentabilidade exige o envolvimento comunit\u00e1rio e social, fica evidente que a interpreta\u00e7\u00e3o da realidade, feita individualmente e a partir de determinados valores, necessita encontrar espa\u00e7os de debate e de trocas para que tome sentido no contexto coletivo, a partir do olhar e da rela\u00e7\u00e3o com o Outro. Neste sentido, Sorrentino (2011) destaca que o compromisso de cada um \u00e9 essencial para a implementa\u00e7\u00e3o das mudan\u00e7as que o momento e as quest\u00f5es socioambientais exigem, mas que precisamos transcender as perspectivas individuais.<\/p>\n<p>No sexto encontro com o Grupo Ambiental foi proposta uma atividade de visita a um centro comercial. Essa estrat\u00e9gia de sa\u00edda de campo teve o objetivo de observar o comportamento dos consumidores e ao mesmo tempo problematizar os padr\u00f5es de consumo de cada um dos participantes do grupo. Tamb\u00e9m teve a inten\u00e7\u00e3o de aprofundar o debate sobre o tema gerador proposto nos C\u00edrculos de Cultura e potencializar as discuss\u00f5es e percep\u00e7\u00f5es a respeito deste tema.<\/p>\n<p style=\"text-align: center;\"><img src=\"\/res\/wp-content\/uploads\/imgCK\/images\/carrocomprar.jpg\" alt=\"\" \/><\/p>\n<h6>(Imagen <a href=\"https:\/\/www.flickr.com\/photos\/160866001@N07\/46076446084\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">Flicr<\/a>)<\/h6>\n<p>Ao observar o comportamento dos consumidores, os estudantes foram estimulados a comentar os temas que j\u00e1 haviam sido discutidos e refletir sobre eles. A atividade despertou forte curiosidade e inquieta\u00e7\u00f5es entre os estudantes, pois os centros comerciais fazem parte de seu cotidiano e a visita, junto ao grupo, possibilitou ver aquele espa\u00e7o com outra perspectiva.<\/p>\n<p>Neste encontro, ao observar a din\u00e2mica de consumo dos centros comerciais, os participantes puderam ressignificar seus conhecimentos em rela\u00e7\u00e3o \u00e0s discuss\u00f5es que j\u00e1 haviam sido realizadas nos C\u00edrculos de Cultura. Quatro aspectos chamaram a aten\u00e7\u00e3o do grupo: <em>a)<\/em> a grande quantidade de pessoas circulando nos corredores do centro comercial em um dia normal de trabalho. b) A diferen\u00e7a entre a quantidade de pessoas que circulam nos dias de trabalho em rela\u00e7\u00e3o ao maior n\u00famero de frequentadores que visitam estes centros comerciais nos finais de semana, feriados e\/ou os dias pr\u00f3ximos de datas comemorativas; c) a quantidade de res\u00edduos que \u00e9 produzida no espa\u00e7o destinado a bares, lanchonetes e restaurantes (pra\u00e7a de alimenta\u00e7\u00e3o); d) a falta de uma pol\u00edtica de sustentabilidade referente ao descarte e separa\u00e7\u00e3o dos res\u00edduos gerados na pra\u00e7a de alimenta\u00e7\u00e3o do estabelecimento. Neste local n\u00e3o foram identificados materiais de comunica\u00e7\u00e3o com orienta\u00e7\u00f5es sobre isto.<\/p>\n<p>Um dos participantes ressaltou que havia gostado da visita ao centro comercial porque <em>nunca havia pensado e relacionado tantos aspectos sobre o consumo. <\/em>Segundo ele, a experi\u00eancia foi diferente das outras oportunidades em que visitou o mesmo local, sozinho ou com familiares<em>.<\/em> Dois elementos podem ter sido determinantes na interpreta\u00e7\u00e3o deste estudante, por um lado a sensibiliza\u00e7\u00e3o e o conhecimento pr\u00e9vio adquirido sobre o tema, e por outro, a possibilidade de realizar uma intera\u00e7\u00e3o com outros sujeitos interessados na discuss\u00e3o de uma mesma tem\u00e1tica, neste caso, o consumo respons\u00e1vel.<\/p>\n<p>Esta possibilidade de participa\u00e7\u00e3o e intera\u00e7\u00e3o com outros sujeitos &#8211; um dos princ\u00edpios da pesquisa participante e dos C\u00edrculos de Cultura \u2013 nos permitiu repensar as pr\u00e1ticas de Educa\u00e7\u00e3o Ambiental e ampliar sua perspectiva transformadora, potencializadora da autonomia e a da emancipa\u00e7\u00e3o dos sujeitos e coletividades, conforme aponta Lima (2011).<\/p>\n<p>A visita ao centro comercial para observa\u00e7\u00e3o e discuss\u00e3o sobre os comportamentos relacionados ao consumo permitiu aos participantes ampliar seu repert\u00f3rio de argumentos durante os C\u00edrculos de Cultura. Neste sentido, vale ressaltar que os participantes tiveram a oportunidade de relacionar, de um modo participativo e interativo, a cadeia produtiva, considerando a extra\u00e7\u00e3o de mat\u00e9rias-primas do meio ambiente, o processo produtivo, a comercializa\u00e7\u00e3o, o consumo e a gera\u00e7\u00e3o de res\u00edduos.<\/p>\n<p>Sobre a import\u00e2ncia da realiza\u00e7\u00e3o de trabalhos com metodologias diferenciadas, a exemplo da atividade de observa\u00e7\u00e3o realizada no centro comercial, os estudantes enfatizaram que a cultura do consumo est\u00e1 impregnada nas pessoas e se manifesta em seus h\u00e1bitos cotidianos. A maioria reconhece que o consumo, geralmente, vai al\u00e9m da necessidade humana, ocasionando diversos problemas ambientais que afetam a sociedade.<\/p>\n<p>Para compreender o processo de constru\u00e7\u00e3o e aprofundamento dos conhecimentos e as percep\u00e7\u00f5es manifestadas pelos estudantes em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 problem\u00e1tica ambiental abordada, foi aplicado um segundo question\u00e1rio contendo dez quest\u00f5es abertas. As cinco primeiras quest\u00f5es serviram como elementos de compara\u00e7\u00e3o entre os posicionamentos dos estudantes antes dos encontros e ap\u00f3s a finaliza\u00e7\u00e3o do processo. As quest\u00f5es seguintes tinham por objetivo a an\u00e1lise da experi\u00eancia com o Grupo Ambiental e a interpreta\u00e7\u00e3o das viv\u00eancias.<\/p>\n<p>A an\u00e1lise dos dados do question\u00e1rio permitiu perceber mudan\u00e7as na forma como os estudantes conceituavam o meio ambiente, tendo em vista que ap\u00f3s os encontros, novos elementos e rela\u00e7\u00f5es foram sendo consideradas, o que permitiu um adensamento de elementos e inter-rela\u00e7\u00f5es. Com exce\u00e7\u00e3o dos participantes P9 e P12, os demais participantes ampliaram seus entendimentos e transcenderam os limites de uma perspectiva naturalista e conservacionista em rela\u00e7\u00e3o ao meio ambiente. Foi poss\u00edvel perceber que, ao discutir as quest\u00f5es sobre o estilo de consumo de determinadas sociedades, os participantes perceberam que h\u00e1 uma interdepend\u00eancia entre comportamentos sociais e meio ambiente. Os participantes apoiaram-se tamb\u00e9m na premissa de que esta interdepend\u00eancia est\u00e1 mediada por valores e pr\u00e1ticas culturais, nem sempre coerentes com os princ\u00edpios de sustentabilidade ambiental. Nesse sentido, o C\u00edrculo de Cultura, tomado como um espa\u00e7o educativo, estimulador de processos dial\u00f3gicos e interculturais, possibilitou a intera\u00e7\u00e3o entre os participantes e contribuiu para a constru\u00e7\u00e3o de uma no\u00e7\u00e3o mais complexa sobre os conceitos de meio ambiente e sustentabilidade ambiental.<\/p>\n<p>Quando questionados sobre a influ\u00eancia dos encontros na forma como percebem a sua rela\u00e7\u00e3o com o meio ambiente e o consumo, os participantes reconheceram em suas a\u00e7\u00f5es, com maior ou menor grau de consci\u00eancia e responsabilidade, a necessidade de rever as formas de consumir, tendo em vista que este processo tem intercorr\u00eancias ao meio ambiente. Entre as v\u00e1rias respostas que demonstram essa preocupa\u00e7\u00e3o com o cuidado que devemos ter com o ambiente, destacam-se as respostas dos participantes P1, P5, P6 e P9. Suas afirma\u00e7\u00f5es denotam uma mudan\u00e7a de atitude em rela\u00e7\u00e3o ao consumo e a tomada de consci\u00eancia em rela\u00e7\u00e3o as implica\u00e7\u00f5es que decorrem dos modos de produ\u00e7\u00e3o e consumo revelados em determinados modelos de desenvolvimento locais e global.<\/p>\n<p>Para Freire (1987), o conte\u00fado da educa\u00e7\u00e3o n\u00e3o deve ser uma imposi\u00e7\u00e3o ou um dep\u00f3sito de informes. Para ele, numa rela\u00e7\u00e3o baseada no di\u00e1logo entre professor e estudantes, a centralidade deve estar na reflex\u00e3o sobre a realidade, a fim de investigar situa\u00e7\u00f5es reais e estimular possibilidades de pensar a mudan\u00e7a de posicionamentos e atitudes. Logo, a abordagem dos temas deve estar associada \u00e0 viv\u00eancia dos estudantes a partir de uma situa\u00e7\u00e3o presente, existencial e concreta para que eles possam atribuir sentido dentro de determinado contexto. Por ser o consumo um tema\/problema que faz parte do cotidiano dos estudantes, a problematiza\u00e7\u00e3o do mesmo possibilitou ao grupo um intenso processo de intera\u00e7\u00e3o e a troca de ideias. A partir desta experi\u00eancia foi poss\u00edvel identificar mudan\u00e7as na forma de perceber a realidade e modificar alguns de seus pontos de vista.<\/p>\n<p style=\"text-align: center;\"><img src=\"\/res\/wp-content\/uploads\/imgCK\/images\/Painel_Paulo_Freire-r.JPG\" alt=\"\" \/><\/p>\n<h6><small>(Imagen: <a style=\"font-size: 10.8333px; text-align: center;\" href=\"https:\/\/es.wikipedia.org\/wiki\/Educaci%C3%B3n_popular\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">Wikipedia<\/a>)<\/small><\/h6>\n<p>Os C\u00edrculos de Cultura desempenharam um importante papel como estrat\u00e9gia para a obten\u00e7\u00e3o dos resultados desta pesquisa. Esta metodologia permitiu que o grupo refletisse sobre sua cultura, seus valores, atitudes e comportamentos cotidianos. O posicionamento dos participantes em rela\u00e7\u00e3o a experi\u00eancia coletiva reflete a necessidade de repensarmos os rumos da educa\u00e7\u00e3o e da Educa\u00e7\u00e3o Ambiental sob uma perspectiva cr\u00edtica, envolvendo os professores e os estudantes em seus diversos contextos sociais, com vistas a sua transforma\u00e7\u00e3o. Assim, o di\u00e1logo por meio de temas geradores e\/ou situa\u00e7\u00f5es-problema precisa ser estimulado para que tome relevo nos grupos e comunidades.<\/p>\n<p>Em rela\u00e7\u00e3o aos processos dial\u00f3gicos, Loureiro e Franco (2014), destacam que,<\/p>\n<blockquote class=\"citados\"><p>\u201co di\u00e1logo \u00e9 uma forma de comunica\u00e7\u00e3o, potencializa saberes, valoriza a palavra e escuta dos participantes, possibilita o conhecimento e promove a transforma\u00e7\u00e3o do mundo por meio da educa\u00e7\u00e3o libertadora e transformadora\u201d (Loureiro e Franco, 2014: 171-172).<\/p><\/blockquote>\n<p>Destarte, quando se discute um tema comum e de interesse de todos, como no caso do tema gerador desta pesquisa, o resultado da aprendizagem emerge como algo material, poss\u00edvel e real, pleno de um grande potencial de significa\u00e7\u00e3o e simbolismo.<\/p>\n<h2><strong>Considera\u00e7\u00f5es finais<\/strong><\/h2>\n<p>Esta pesquisa evidenciou o problema da fragilidade e da aus\u00eancia de atividades de cunho ambiental nos espa\u00e7os escolares e a necessidade das escolas proporem novas metodologias que favore\u00e7am a abordagem das quest\u00f5es ambientais em diferentes \u00e1reas do conhecimento. A experi\u00eancia evidenciou a necessidade de levar todos os atores a pensar o jeito de se fazer Educa\u00e7\u00e3o Ambiental, envolvendo-os e motivando na participa\u00e7\u00e3o de toda a comunidade escolar. Nesse sentido, o C\u00edrculo de Cultura emerge como uma possibilidade de di\u00e1logo intercultural, por suas caracter\u00edsticas e por considerar os participantes como sujeitos ativos de todo o processo, a partir do di\u00e1logo e da intera\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>O trabalho com o Grupo Ambiental realizado em contraturno escolar representa uma possibilidade para que a Educa\u00e7\u00e3o Ambiental conquiste um tempo e espa\u00e7o, mesmo que m\u00ednimo, na vida dos estudantes. Por\u00e9m, cabe ressaltar que, uma atividade em contraturno escolar n\u00e3o obrigat\u00f3ria, ou seja, pode estar desarticulada do curr\u00edculo, o que traz consigo algumas dificuldades evidenciadas durante a pesquisa. Sobre isto, vale ressaltar que ao longo do processo houveram alguns entraves, tais como: aus\u00eancia de alguns participantes em determinados encontros; incompatibilidade de hor\u00e1rios dos pais ou respons\u00e1veis para que os estudantes pudessem ir at\u00e9 a escola; quest\u00f5es relacionadas a log\u00edstica (alimenta\u00e7\u00e3o e transporte escolar); seguran\u00e7a dos estudantes, entre outras situa\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p>Em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 experi\u00eancia de forma\u00e7\u00e3o com os estudantes via Grupo Ambiental, destacam-se quatro aspectos: a) a necessidade do debate sobre as diversas tem\u00e1ticas ambientais, em especial a quest\u00e3o do consumo e gera\u00e7\u00e3o de res\u00edduos; b) a faixa et\u00e1ria dos participantes que, em alguns momentos, n\u00e3o correspondeu ao m\u00e9todo utilizado. Isto pode ser justificado pela imaturidade de alguns participantes ou pelo fato de que os estudantes passaram a integrar um novo grupo, com pessoas diferentes de seu conv\u00edvio di\u00e1rio, gerando inibi\u00e7\u00f5es e timidez nos momentos em que se fazia necess\u00e1ria a exposi\u00e7\u00e3o oral; c) o avan\u00e7o dos participantes durante o processo, o aprendizado obtido por meio dos diversos recursos utilizados nos encontros e a intera\u00e7\u00e3o entre os membros durante as abordagens tem\u00e1ticas; d) a evid\u00eancia de que os estudantes demonstraram desejo por a\u00e7\u00f5es e atividades diferenciadas na escola, bem como o interesse pela abordagem de temas relacionados ao meio ambiente.<\/p>\n<p>Por fim, ressalta-se que o trabalho cont\u00ednuo com o Grupo Ambiental emerge como uma possibilidade de garantir o desenvolvimento de a\u00e7\u00f5es ambientais no espa\u00e7o escolar. A experi\u00eancia demonstrou que este tipo de a\u00e7\u00e3o coletiva possibilita a concretiza\u00e7\u00e3o de espa\u00e7os para problematizar tem\u00e1ticas acerca da cultura do consumo e da sustentabilidade. E, ainda, pode garantir espa\u00e7o e tempo para a Educa\u00e7\u00e3o Ambiental no processo de forma\u00e7\u00e3o dos estudantes, potencializando as suas interpreta\u00e7\u00f5es, reflex\u00f5es e a\u00e7\u00f5es, n\u00e3o s\u00f3 na escola, mas no cotidiano de suas viv\u00eancias.<\/p>\n","protected":false},"featured_media":0,"template":"","palabra_clave":[861,864,576,862,863],"yoast_head":"<!-- This site is optimized with the Yoast SEO plugin v16.7 - https:\/\/yoast.com\/wordpress\/plugins\/seo\/ -->\n<meta name=\"robots\" content=\"index, follow, max-snippet:-1, max-image-preview:large, max-video-preview:-1\" \/>\n<link rel=\"canonical\" href=\"https:\/\/eduso.net\/res\/revista\/28\/el-tema\/consumo-e-sustentabilidade-em-circulos-freireanos-de-cultura-uma-experiencia-com-estudantes-do-sul-do-brasil\" \/>\n<meta property=\"og:locale\" content=\"es_ES\" \/>\n<meta property=\"og:type\" content=\"article\" \/>\n<meta property=\"og:title\" content=\"Consumo e sustentabilidade em C\u00edrculos Freireanos de Cultura: uma experi\u00eancia com estudantes do Sul do Brasil - RES. 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